Vacina contra câncer de pâncreas é promissora após testes

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Há cinco anos, um pequeno grupo de cientistas do câncer decidiu testar sua nova vacina em uma das formas mais virulentas da doença: o câncer de pâncreas.

Nesta quarta-feira (10), os cientistas relataram resultados que desafiaram as probabilidades. A vacina provocou resposta imune em metade dos pacientes tratados, e essas pessoas não apresentaram recidiva do câncer durante o estudo, descoberta essa que especialistas externos descreveram como extremamente promissora.

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O estudo, publicado na Nature, foi um marco no movimento de anos para fazer vacinas contra o câncer sob medida para os tumores de pacientes individuais.

Pesquisadores do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, EUA, liderados pelo Dr. Vinod Balachandran, extraíram tumores de pacientes e enviaram amostras para a Alemanha.

Lá, cientistas da BioNTech, empresa que produziu vacina contra a Covid-19 com a Pfizer, analisaram a composição genética de certas proteínas na superfície das células cancerígenas.

Usando esses dados genéticos, os cientistas da BioNTech produziram vacinas personalizadas projetadas para ensinar o sistema imunológico de cada paciente a atacar os tumores.

Como as vacinas contra a Covid-19 da BioNTech, os imunizantes contra o câncer dependiam do RNA mensageiro. Nesse caso, as vacinas instruíram as células dos pacientes a produzir algumas das mesmas proteínas encontradas em seus tumores extirpados, potencialmente provocando resposta imune que seria útil contra células cancerígenas reais.

“Este é o primeiro sucesso demonstrável – e vou chamá-lo de sucesso, apesar da natureza preliminar do estudo – de uma vacina de mRNA no câncer de pâncreas”, disse o Dr. Anirban Maitra, especialista na doença na Universidade do Texas MD Anderson Cancer Center, que não participou do estudo. “Por esse padrão, é um marco.”

Montagem do estudo

O estudo foi pequeno: apenas 16 pacientes receberam a vacina, parte de regime de tratamento, que também incluía quimioterapia e medicamento destinado a impedir que os tumores escapassem das respostas imunes das pessoas.

A pesquisa, contudo, não pôde descartar totalmente outros fatores além da vacina, que contribuíram para melhores resultados em alguns pacientes. “É relativamente cedo”, disse o Dr. Patrick Ott, do Dana-Farber Cancer Institute.

Além disso, “o custo é grande barreira para que esses tipos de vacinas sejam mais amplamente utilizados”, disse a Dra. Neeha Zaidi, especialista em câncer pancreático da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins. Isso poderia criar disparidades no acesso.

Mas o simples fato de os cientistas poderem criar, verificar a qualidade e distribuir vacinas personalizadas contra o câncer tão rapidamente – os pacientes começaram a receber as vacinas por via intravenosa cerca de nove semanas após a remoção dos tumores –, era sinal promissor, disseram os especialistas.

Desde o início do estudo, em dezembro de 2019, a BioNTech encurtou o processo para menos de seis semanas, disse o Dr. Ugur Sahin, cofundador da empresa, que trabalhou no estudo. Eventualmente, a empresa pretende produzir vacinas contra o câncer em quatro semanas.

E, desde que começou a testar as vacinas há cerca de uma década, a BioNTech reduziu o custo de aproximadamente US$ 350 mil por dose para menos de US$ 100 mil ao automatizar partes da produção, disse Sahin.

Vacinas vs. cânceres

Uma vacina personalizada contra o câncer de mRNA desenvolvida pela Moderna e pela Merck reduziu o risco de recaída em pacientes que fizeram cirurgia para melanoma, um tipo de câncer de pele, anunciaram as empresas no mês passado.

Mas o estudo mais recente elevou o alcance e ousadia ao visar o câncer pancreático, que se acredita ter menos alterações genéticas, o que o tornaria maduro para tratamentos com vacinas.

Em pacientes que não pareciam responder à vacina, o câncer tendia a retornar cerca de 13 meses após a cirurgia. Os pacientes que responderam, no entanto, não mostraram sinais de recaída durante os cerca de 18 meses em que foram acompanhados.

Curiosamente, um paciente mostrou evidências de resposta imune ativada por vacina no fígado depois que um crescimento incomum se desenvolveu lá. O tumor desapareceu posteriormente em exames de imagem.

“É anedótico, mas é bom dado confirmatório de que a vacina pode entrar nessas outras regiões tumorais”, disse a Dra. Nina Bhardwaj, que estuda vacinas contra o câncer na Escola de Medicina Icahn, no Monte Sinai.

Luta por imunizantes contra cânceres

Os cientistas têm lutado por décadas para criar vacinas contra o câncer, em parte porque treinaram o sistema imunológico em proteínas encontradas em tumores e células normais.

A adaptação de vacinas para proteínas mutantes encontradas apenas em células cancerígenas, no entanto, potencialmente ajudou a provocar respostas imunes mais fortes e abriu novos caminhos para o tratamento de qualquer paciente com câncer, disse Ira Mellman, vice-presidente de imunologia do câncer da Genentech, que desenvolveu a vacina contra o câncer pancreático com a BioNTech.

Apenas estabelecer a prova de conceito de que as vacinas contra o câncer podem realmente fazer algo depois de, sei lá, trinta anos de fracasso, provavelmente não é uma coisa ruim. Vamos começar com isso.

Ira Mellman, vice-presidente de imunologia do câncer da Genentech

Com informações de The New York Times

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